Há já um tempo que uma avaria me impede de ver televisão e longe vai o tempo em que eu tinha vagar para me sentar e desfrutar da leitura de um jornal. Porém, ainda me posso dar ao luxo de ouvir um ou outro noticiário radiofónico de vez em quando. Há dias em que ligo uma telefonia e fico com a sensação de que o Mundo alcançou finalmente a sua época áurea. Não há guerras nem fome nem doenças. Nenhum acidente, incêndio ou temporal causou estragos ou vítimas e o crime cessou. A Humanidade ganhou juízo, vive pacìficamente e em comunhão com a Natureza. Ninguém vive na pobreza, os preços e os impostos baixaram para níveis justos e acabou a ganância, a ambição e a especulação. A entreajuda e a fraternidade predominam e os príncepes que governam os países são sensatos, bondosos e zelosos para com os seus povos e territórios. Só pode mesmo.
Foi o que aconteceu no passado dia 30 de Setembro. Os boletins noticiosos resumiam-se a apenas uma não-notícia: Cristiano Ronaldo chateara-se com qualquer coisa e abandonara o estágio da selecção principal de futebol nas vésperas de um jogo com a equipa da Dinamarca, a contar para a Liga das Nações. "E daí? Qual a importância disso? Se ele se quis ir embora, isso é lá com ele." Esta foi uma das coisas em que eu pensei. Passado este boletim sem que nenhuma outra matéria se apresentasse e tendo-se sucedido os dias sem que de nada mais se falasse, e, segundo constava, o mesmo se passava na generalidade dos meios de comunicação social, depressa conclui que o Putin tinha mandado os seus soldados regressarem à Rússia, que os surtos de ébola em África tinham cessado e que a inflação na zona euro estagnara. Em suma, nada mais se passava, a Terra estava na paz dos anjos! Felicidade para todos!
Claro que este era mais um desejo que uma convicção. Na realidade, a Ucrânia continuava a ser bombardeada, prosseguia também a guerra no Estreito de Ormuz, nenhum conflito no Mundo tinha sequer cessado, pausado ou abrandado. A miséria, a fome e as doenças continuavam a assolar muita gente por todo o planeta, assim como o crime, os desastres ambientais e meteorológicos, as tiranias e estupidezes dos grandes senhores. Enfim, tudo continuava na mesma. Apenas a comunicação social e parte da população pareciam como que vidradas numa espécie de novela de má qualidade transmitida em todos os meios e a toda a hora. E passadas duas semanas, ainda continua a garantir tempo de antena e gastar muita tinta, papel e pixéis de ecrãs de computadores, tablets e telemóveis, ainda que a sucessão de episódios poucas alegrias traga.
Do pouco que assisti, pois não tenho pachorra nem tempo para estas criancices, devo dizer que os colegas de selecção do grande CR7 estiveram à altura do desafio pois remeteram-se ao silêncio sobre o assunto, evitando polémicas e especulação, e ainda ganharam o jogos seguintes com classe e requinte, demonstrando que podem triunfar mesmo sem o nome maior da equipa. Jorge Jesus pode ou não ter-se portado mal ao ter dito o que disse na conferência de imprensa, não sabemos, mas é ele o treinador e ele é que tem a incumbência de gerir a equipa. Para além disso, soube ficar calado na altura certa para não ampolar ainda mais o incómodo da situação. Mal mesmo na fotografia ficaram outras duas personagens desta novela. Uma foi Luís Montenegro que, como que demonstrando que está tudo bem com Portugal e não há nada que fazer na governação, rebaixou-se e desprestigiou-se pùblicamente ao intervir neste assunto, como se fosse uma importante matéria de Estado, demonstrando bem a qualidade da classe política nacional. Outra foi, claro, Cristiano Ronaldo. Não só passou por se lhe provar que a selecção pode passar e bem sem jogar em função dele e mesmo sem ele e vencer como, com a sua atitude e o comunicado absurdo que mais tarde emitiu, deixou ao público a sensação de que deixou o seu vedetismo abafar a humildade e vir ao de cima naquilo que aos olhos de todos pode não ser mas mais parece uma birra.
Olho para a despedida há dias de Messi dos relvados e fico com pena por o seu maior rival e, verdade seja dita, o melhor do Mundo, Cristiano Ronaldo, não dar por terminada a sua brilhante carreira de forma igualmente apoteótica. Enfim, ele assim o quis. Mas sabe-se lá que voltas o nosso pequeno planeta ainda há-de dar antes que esta vergonhosa novela acabe.
Quanto a mim, mantenho os pés assentes na terra e os olhos abertos, que eu não me posso dar a distracções e anestesias mentais e tenho uma vida própria para viver. É que, para além deste "pão e circo" da actualidade, os problemas do Mundo continuam a existir, ainda que a comunicação social os ignore em favor de nulidades.
Que a caca esteja convosco!
P.S.: NÃO AO ACORDO ORTOGRÁFICO!!!
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