Eu creio que já falei deste assunto mas não resisto a voltar a ele para deixar claras algumas ideias que a mim me parecem básicas mas que dá a impressão que talvez não o sejam a muita gente, de entre a qual se incluem os nossos sucessivos governantes, já para não falar em talvez a classe política em geral, a avaliar pela amostragem que temos tido década após década.
Sempre que chega o Ano Novo, é notícia habitual o aumento do custo de vida. Sobe o preço dos alimentos, dos combustíveis, da electricidade, dos transportes, enfim, como dizia a Ti Maria de Vilares, que era criadora de vacas, «tudo aumenta menos o leite do cacete». Consequentemente, ora por iniciativa governamental ora por insistência dos sindicatos, sobem-se os ordenados, as pensões e os subsídios. Este ano, por exemplo, o salário mínimo, que é daquelas coisas que só existem para quem trabalha por conta de outrem e nem sempre, passa para 920 euros, que, na nossa saudosa antiga moeda, são 184.443$44 (para quem não sabe ou não se lembra, cento e oitenta e quatro mil e quatrocentos e quarenta e três escudos e quarenta e quatro centavos). Parece estar a questão resolvida. Porém, estes aumentos não serviram para nada. Não é preciso ser um génio para chegar a essa conclusão.
O aumento de um ordenado, pensão, subsídio ou qualquer outra prestação implica sempre uma despesa extra. Muitas empresas não têm possibilidade de suportar este aumento de gastos e deparam-se com dois caminhos, que são ou a adaptação a esta nova realidade ou o encerrar das portas. Só há três formas possíveis de cobrir ou evitar este aumento de despesa: aumentando os preços dos produtos ou serviços, aumentando a produção e diminuindo os custos. Aumentar a produção consiste em fazer mais produtos ou prestar mais serviços. Para reduzir os custos pode-se diminuir a qualidade dos produtos ou serviços
prestados, aumentar a laboração dos empregados ou despedir pessoal. Pode ser empregue uma destas medidas, várias ou todas ao mesmo tempo. Como as matérias-primas e produtos em geral se tornaram mais caros, é difícil aumentar a produção sem que os produtos ou serviços venham a perder qualidade. Aumentar a carga laboral dos trabalhadores e/ou despedir alguns deles é comum mas pode dar azo a chatices com os sindicatos e autoridades. Portanto, o recurso mais comum é o de aumentar os preços dos produtos e serviços. O problema é que, se se aumentam os preços, o custo de produção em particular e o de vida em geral vão também aumentar. Que fazer agora? O mesmo que os governos do meio século que nos antecede têm feito: aumentar salários, pensões, subsídios e tudo o mais por aí a fora.
Atentemos aos seguintes valores de referência, os do salário mínimo desde 2014.
2014: 845 euros
2015: 505 euros
2016: 530 euros
2017: 557 euros
2018: 580 euros
2019: 600 euros
2020: 635 euros
2021: 665 euros
2022:705 euros
2023:760 euros
2024: 820 euros
2025: 870 euros
2026: 920 euros
Se prestarmos um mínimo de atenção, o salário mínimo tem tido constantes aumentos na medida em que o custo de vida também tem aumentado. O valor estabelecido para este ano é quase o dobro do que havia para 2014. E se deste mês em diante, até ordem ao contrário, o valor em escudos é de 184.443$44, no ano 2000, antes do euro, tinha sido estipulado em 63.800$00, ou seja, hoje é quase o triplo. Quem então ganhava 100 contos por mês, gozava de um ordenado muito bom mesmo ou então tinha-se quase literalmente matado a trabalhar para o conseguir. Em 1990, eram 35.000$00, pouco mais de uma quinta parte do que é agora. Cem contos num mês era impensável para quase todos os trabalhadores do país. Em 1980, eram 9000$00, 20 vezes e meia menos que o indicado para este ano. Quando o salário mínimo foi criado, em 1974, a lei indicava a obrigatoriedade de pelo menos 3300$00, menos do que hoje se recebe por meio dia de trabalho e perto de um de 66 avos daquilo que passa a ser este ano o valor de referência.
Perante estes dados, uma pergunta vem-nos logo à cabeça. As pessoas deviam ser mesmo muito miseráveis. Se agora os ordenados são muito mais altos, então as pessoas devem ter um poder de compra muito superior, certo? Errado. Na maior parte dos anos desde a estipulação de um valor para o salário mínimo, o dinheiro, embora fosse menos, permitia comprar mais, pelo menos no que respeita aos bens essenciais, do que nos dias que correm. O problema é que a moeda foi sempre desvalorizando, fosse escudo ou euro, e os preços subiram sempre e acima do crescimento dos ordenados e prestações sociais. A inflação galopante obrigou até a um acerto do ordenado mínimo duas vezes: de 27.200$00 para 30.000$00 no primeiro trimestre e 31.500$00 no segundo.
Em suma, os aumentos destes pagamentos sem medidas acessórias obrigou sempre ao aumento dos custos de produção e consequente aumento dos preços dos produtos e dos serviços, alimentando a inflação que pretendia combater. É uma pescadinha de rabo na boca. Um rabo muito inflacionado.
Que podemos concluir daqui? Que aumentar ordenados, pensões e subsídios é absolutamente inútil como forma de combater o aumento do custo de vida se não estiver acompanhado de medidas de combate à inflação. Porém, como é mais fácil e cativa mais o eleitorado, um após outro, é o que os governos têm feito. Pão e circo, meus caros! É-nos dado sempre mais dinheiro por um lado para ser-nos retirado por outro.
Que a caca esteja convosco!
P.S.: NÃO AO ACORDO ORTOGRÁFICO!!!